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© outro lado da luz

temporadas com dez capítulos de dois minutos cada.

© outro lado da luz

temporadas com dez capítulos de dois minutos cada.

© os Avós e o Natal #1

© os Avós e o Natal© a Família Scott #1

as guerreiras tinham corrido atrás de Ulisses e encontraram-me, desfalecida de exaustão e o meu protector em alerta. uma das guerreiras tentou tocar-me para sentir a minha pulsação e o meu tigre rosnou-lhe. então ficaram quatro guerreiras, sentadas a alguma distância, enquanto duas foram buscar Nala. de tanto em tanto tempo as guerreiras aproximavam-se uns centímetros. das primeiras vezes Ulisses rosnou, mas a pouco e pouco foi reconhecendo o cheiro da tribo e, quando viu a sua tigresa, levantou-se e deixou-me ser tocada. as duas guerreiras levaram-nos para a aldeia e deixaram uma maca para as outras quatro me levarem de volta a casa. primeiro tentaram acordar-me com um saquinho de cheiro, mas eu estava exaurida e, mal abria os olhos, adormecia novamente. a anciã aguardava a minha chegada, preocupada com o efeito que o meu grito podia ter na selva. os homens insistiram em ficar na aldeia das mulheres para nos protegerem. o coração falava mais alto. deitaram-me no meio da aldeia, fizeram oferendas aos deuses para eu recuperar a minha energia, dançaram à minha volta. ninguém dormiu, nem Phil, que tinha acordado com o meu grito. todos sopravam energia para o meu corpo e, ao nascer do sol, tossi e saiu água da minha boca, como se eu me tivesse afogado. Phil abraçou-me até sentir que eu estava de volta. quando me pôs em pé, o meu chão já não estava seco. os anciões sossegaram a tribo dizendo que os deuses estavam apaziguados. as mulheres levaram-me ao rio, para flutuar ao sabor da corrente. o rio devolveu-me sempre à margem. tudo estava em paz. Phil seguiu-nos a alguma distância. as mulheres autorizaram-no a aproximar-se quando o rio me devolveu à margem pela terceira vez, e disseram-lhe que eu continuava fértil. ele abraçou-me e chorou ao perceber o que eu tinha ofertado aos deuses para o ter de volta inteiro.

por hoje ser o meu aniversário quis presentear-vos com este regresso excepcional a África, por um dia. 

(continua no dia 15 de Junho)

© a Família Scott #10

Aurora e Santiago

(capítulo #9)

ficámos à conversa até perto das nove, fomos surpreendidos pelo som de um helicóptero e, finalmente, vimos a arca a ser transportada até à entrada do hospital de campanha. Phil disse: eu não tinha feito melhor. era habitual ser aquele piloto a trazer-nos as encomendas e era extremamente cuidadoso a pousar tudo. nunca partiu nada. só hoje é que algumas árvores ficaram com os ramos cortados pelas hélices, mas era impossível impedi-lo dada a localização por nós escolhida. o enfermeiro tinha organizado tudo, para nos deixar conviver em família mais algum tempo. o segundo helitaxi estava no lugar de aterragem, no terreno neutro. o piloto explicou que havia filas muito longas no check in e estava preocupado se não conseguissem embarcar. os meus sogros agradeceram o cuidado. deram os parabéns a Aurora pela melhor refeição de sempre. a neta abraçou-os aos beijinhos. agora que já sabem o caminho, vêm mais vezes sim? pediu. claro que sim, disseram os avós, surpreendidos pela sua eloquência. por umas horas fomos só família, sem cirurgia, sem saudade. aquele amanhecer tinha sido pura magia da boa. o resto da família tinha arrumado tudo e estava no heliporto à espera dos pais. os irmãos preferiram dormir o máximo possível, o despertador foi o som dos helitaxi. reunimo-nos todos no terreno neutro. a enfermeira tinha explicado aos anciões o motivo desta despedida tão repentina e estes tinham informado as duas aldeias. a anciã veio ter com o meu sogro, deu-lhe uma caixa com saquinhos de pano para ele fazer chá quando tivesse dores e colocou-lhe ao pescoço um fio de prata com um escaravelho fossilizado, como amuleto. voltem! são muito bem-vindos. disse arranhando o inglês, mas todos a percebemos. a tribo aplaudiu e agradeceu cantando o hino da alegria no seu dialecto. a música era essa, a canção é que talvez não. vozes magníficas! exclamou a mãe. e partiram com um: até sábado! olhei para o meu marido e percebi-lhe um sofrimento inominável. logo que os helicópteros deixaram o nosso campo de visão, ele perdeu os sentidos. as guerreiras vieram a correr, os homens acudiram e sem palavras levaram-no para o hospital de campanha na aldeia das mulheres. perto de casa, dos filhos, de mim. a medicina convencional pouco podia fazer, ele estava em coma. ausente da dor. pedi para olharem pelos meus filhos e corri, corri, corri, para além do bosque, para além do descampado, corri, corri, corri até a minha garganta saber a sangue e gritei um colossal AAAAAAAAAAAH! que fez estremecer o ar. ouvi um rugido atrás de mim, era Ulisses. cai de joelhos, abracei-o e chorei até o meu chão secar.

FIM
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Kuki - A Minha Companheira de Vida
28 Abril 2003 - 01 Abril 2021

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